Como fazer aquarelas vegetais líquidas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Em janeiro produzi algumas aquarelas vegetais como parte dos meus estudos sobre tingimento natural. Essa receita básica é intuitiva, as quantidades são decididas a partir da observação e do que queremos com a tinta. Tomei como referência o livro Make ink: a forager's guide to natural inkmaking do Jason Logan. Apesar de as receitas utilizarem plantas estrangeiras, é possível adaptá-las para plantas semelhantes encontradas por aqui. Então mãos à obra:


Os materiais são:

- porção de plantas tintórias (cascas, flores, folhas, etc)

- água desmineralizada (comprada em posto de gasolina) ou água filtrada

- goma arábica em pó

- alúmen de potássio ou pedra hume

- cravos da índia

- óleo essencial de melaleuca ou tomilho

- panela velha (não pode ser utilizada para cozinhar alimentos depois)

- frascos de vidro de preferência escuros

- coador de pano


Como fazer:

1. Cozinhe as plantas tintórias com a água desmineralizada ou filtrada em fogo baixo por pelo menos 30 minutos. Use água suficiente para que fique ao fogo por todo esse tempo sem secar completamente. No final, o extrato deve estar bem concentrado. Você pode testar a concentração da cor mergulhando tirinhas de papel de aquarela na tinta.

2. Deixe o extrato esfriar completamente e coe.

3. Adicione 1/2 colher de café de alúmen de potássio para 30 ml de extrato e mexa até dissolver.

4. Adicione a goma arábica e mexa bem. A quantidade depende da viscosidade que você quer para sua tinta. Uma boa proporção é 1/2 colher de café para 30ml de extrato. 

5. Adicione uma gota de óleo essencial de melaleuca ou tomilho.

6. Coloque a tinta no frasco de vidro e adicione um cravo da índia.

7. Você pode etiquetar o frasco, identificando a tinta. Sugiro anotar também a data de fabricação.


Algumas plantas com cores mais duráveis são: erva mate de chimarrão, macela do campo, flores de cosmos e coreopsis, casca de romã, serragem de pau brasil, folhas de eucalipto, casca de catuaba e barbatimão, pó de café e caroço de abacate.


Flores de Coreopsis tinctoria do meu jardim
Flores de Coreopsis tinctoria do meu jardim

O alúmen de potássio é um mordente utilizado para tornar a cor mais duradoura. Já a goma arábica é o aglutinante da tinta, de uso bastante antigo. Ela funciona como uma cola entre o corante/pigmento e a superfície onde a tinta será aplicada, que nesse caso é o papel. 


O óleo essencial e o cravo da índia funcionam como antifúngicos, aumentando a validade da tinta no frasco por até 9 meses. Sem esses conservantes, a tinta dura até um mês se mantida em geladeira. 


É possível alterar algumas cores sensíveis a mudanças de pH com modificadores, como pitadinhas de bicarbonato de sódio ou gotinhas de vinagre. As cores modificadas através de alteração do pH tendem a ser menos estáveis, então recomendo adicionar os modificadores em pequenas porções da tinta na hora do uso ou até mesmo no papel (nesse caso, é só diluir o bicarbonato em água e gotejar na área pintada). Adicione o modificador aos poucos até encontrar o tom desejado. Um outro modificador menos acessível é o sulfato ferroso, muito usado por tintureiras como fixador. Ele tende a escurecer a cor e deve ser utilizado com muita cautela, em pequeniníssimas quantidades. 


Produzi aquarelas com flor de cosmos, coreopsis, serragem de pau brasil, erva mate, casca de romã e índigo. A digitalização não é muito fiel às cores, por mais que eu tenha tentado ajustá-las no Photoshop.


A aquarela do pau brasil é muito curiosa porque ela apresenta tons de rosa e vermelho na mesma pincelada. Na de erva mate utilizei o sulfato ferroso para obter o verde musgo. É interessante observar como a tinta vai escurecendo aos poucos no papel, conforme o ferro oxida em contato com o oxigênio do ar. Já o azul foi produzido com o pigmento em pó do índigo japonês (Persicaria tinctoria) que eu comprei. Ela é a única tinta que não parte do corante (solúvel em água), mas sim de um pigmento (insolúvel).


Se você fizer as tintas, vou adorar saber! Deixe um comentário, uma mensagem ou entre em contato pelas redes sociais. E se tiver alguma dúvida, é só escrever.

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