Adaptando materiais para renda de bilro

sábado, 5 de setembro de 2020

Tenho o sonho antigo de aprender renda de bilro e a dificuldade para encontrar os materiais sempre foram um grande impedimento. Nunca achei a almofada e os bilros para comprar, o que contribuía para deixar a técnica ainda mais encoberta de mistérios. Essa foi a primeira lição: a renda de bilros, por seu próprio modo lento de fazer, foge à lógica rápida do consumo. Eu precisaria construir meus próprios materiais caso quisesse aprender a técnica. Então mãos à obra.


Os materiais básicos para fazer renda de bilro são:

- almofada

- bilros

- linha de diversos tipos, mas basicamente são as mesmas utilizadas no crochê

- muitos, mas muitos, alfinetes

- pique, que é o gráfico do padrão


No post vou escrever apenas sobre a almofada e os bilros, já que são os mais difíceis de encontrar ou fazer. Os outros materiais são facilmente arranjados em armarinhos, papelarias e na internet, no caso dos piques.


Almofada

Na cartilha do projeto Me Ensina a Fazer Renda, de Florianópolis, tem o passo a passo de como fazer uma almofada pequena usando espuma. Cogitei usar esse material, mas a quarentena e o alto custo da espuma me fizeram desistir da ideia. Tradicionalmente, as almofadas, que podem ser redondas ou até planas, como um colchão, são feitas com enchimento de palha. A favorita é a palha de folha de bananeira, que é colhida seca no pé. Mas também existem com capim barba-de-velho e palha de milho, muito utilizada antigamente para fazer colchão.


Optei então por fazer minha almofada com uma mistura de palha de bananeira que encontrei na praça em frente de casa (apenas quatro folhas) e palha de milho que juntei nos descartes da feira de rua do bairro. Sequei a palha de milho no sol, mas com a chegada de uma semana com tempo muito úmido, tive que terminar a secagem no forno porque uma parte acabou mofando.


Costurei com algodão cru a almofada cilíndrica com mais ou menos 32 cm de comprimento e 20 cm de altura e enchi com a palha picadinha. Depois de pronta envolvi com uma capinha de tricoline estampada, seguindo a tradição de encapar a almofada com chita. Com o tempo esse tecido se desgasta por causa dos alfinetes e as rendeiras geralmente adicionam uma capa nova por cima da antiga, o que contribui para estruturar ainda mais a almofada.


Almofada sem a capa

A palha deve ficar beem compactada, para dar firmeza aos alfinetes. Minha almofada não ficou tão cheia quanto deveria, mas costurei o "saco" da palha de forma que fosse fácil abrir para trocar a palha quando necessário. Isso acontece mesmo, já que com o tempo a palha vai virando um pozinho, mas já li que algumas rendeiras não trocaram a palha de uma almofada com 70 anos! Pretendo abrir minha almofada em breve para completá-la com serragem de madeira, uma outra opção de material.


Ah, para deixar a almofada estável é necessário colocar uma pedra dentro, que funcionará como contrapeso para os bilros. Dependendo do projeto muitos bilros são usados e eles acabam ficando bem pesados. Eu usei uma pedra com aproximadamente 1,2 kg - a cartilha do projeto Me Ensina a Fazer Renda sugere uma pedra de 1 kg para uma almofada pequena. Mas o peso da pedra depende, na verdade, do tamanho da sua almofada e se você usará um cavalete ou não. 


Bilros

Os bilros são os materiais mais difíceis de encontrar se você não mora em uma cidade que tem tradição em renda de bilro. Não achei nenhum site brasileiro que venda online e nos estrangeiros um kit com 12 custa no mínimo R$90. Eles são bem caros porque geralmente são feitos com madeira torneada ou esculpida, um a um, e portanto são trabalhosos e exigem conhecimentos e equipamentos de marcenaria. Existem ainda bilros feitos com madeira de taboca e coco de macaúba, o que também não é muito prático de se encontrar em São Paulo.


Decidi fazer meus próprios bilros seguindo as dicas e tutoriais que a Adriana posta em seu canal do Youtube. O bilro tem uma anatomia própria para funcionar: ele tem a cabeça, uma saliência na ponta que impede a linha de correr; o pescoço, onde a linha é enrolada; e o cabo, onde seguramos o bilro. Para fazer o pescoço e a estrutura utilizei um espeto de churrasco bem lixado, para ficar lisinho e a linha não enroscar; para a cabeça utilizei uma miçanga de madeira colada com Tekbond; e modelei o cabo com massa de biscuit. Depois de tudo seco, passei uma demão de verniz fosco.


Bilros de espeto de churrasco, miçanga e biscuit

Os bilros funcionam, mas tenho algumas ressalvas. A miçanga que escolhi como cabeça é pequena, e as linhas de crochê mais grossas acabam escapando do bilro com mais facilidade. O cabo de biscuit é interessante porque dá para adaptar ao tamanho mais anatômico para você, mas ele é um pouco desagradável ao toque, ainda mais no calor, e não produz aquele som gostoso da madeira quando um bate no outro. Um aspecto importante das artes têxteis para mim é, justamente, a multisensorialidade, e os bilros de biscuit pecam nos quesitos audição e tato.


No fim, minha almofada e meus bilros estão longe do ideal e ainda quero bilros de coco ou madeira. Mas se eu esperasse ter os melhores materiais para começar, nunca iria aprender, ainda mais nesse contexto de quarentena. Como diz uma amiga querida: antes feito que perfeito. E olha, minha primeira rendinha ficou bonita demais.


Para fazer a renda da foto de abertura do post segui esse tutorial aqui. Vamos rendar!


Um comentário:

  1. Adorei, Bel! Só você mesmo pra escrever e ilustrar com tantos detalhes e leveza ao mesmo tempo. 💜💜💜

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