Tutorial: tingimento solar

terça-feira, 21 de julho de 2020

Toda vez que preciso descansar ou colocar as ideias no lugar, me dedico a alguma arte manual. É uma forma de pensar sem pensamentos, ou melhor, de deslocar o centro pensante da cabeça para mãos. Além de me ajudar a desenvolver a paciência, o que é difícil de ter com uma personalidade que mistura ansiedade com perfeccionismo, as artes manuais alimentam a minha curiosidade e criatividade.

Sobre esse assunto, recentemente li o livro Slow Stitch: Mindful and Contemplative Textile Art da artista têxtil Claire Wellesley-Smith. O texto é simples, com reflexões sobre como costurar, ou bordar, de forma lenta e atenta com um número restrito de pontos pode ser um exercício de meditação. Ela comenta brevemente obras de artistas têxteis e sugere exercícios, como a criação de um stitch journal, uma espécie de diário bordado, em que você faz uma pequena porção de pontos por dia. 

Mas o que me encantou mesmo foi a relação com os materiais. Ela dá preferência para a reutilização de tecidos, de peças antigas que temos em casa ou comprados em bazares e brechós. E propõe a realização de transformações lentas, como a exposição dos tecidos às intempéries e o tingimento das próprias linhas e fios utilizando os pigmentos das plantas locais. Bordar é, assim, uma forma de se conectar com o seu entorno.

Dentre as técnicas que ela sugere, o tingimento solar com corantes naturais é muito simples e acessível. Não é necessário ter panela nem fogão. Basta ter somente... paciência! E deixar o sol e o tempo trabalharem. Fiz alguns testes com o passo a passo da Claire Wellesley-Smith e após algumas tentativas, fiz algumas modificações.

Antes de tudo, lembre-se de separar os utensílios e recipientes somente para o tingimento e não use esses materiais para cozinhar e nem para alimentar animais. Apesar de as matérias-primas não serem tóxicas, é aconselhável usar equipamentos de proteção como luvas.

Agora vamos lá!

Pré-mordentagem
O maior desafio no tingimento natural é fixar a cor no tecido de forma que ela fique resistente à luz, ao atrito e a lavagem. Por isso o primeiro passo consiste em preparar as linhas ou tecidos com um mordente, uma substância que tem a função de "morder" os corantes nas fibras. Nessa técnica do tingimento solar vamos fazer a pré-mordentagem a frio.

Você vai precisar de:
  • Pote de vidro com tampa limpo (desses de conserva)
  • Água quente
  • Alúmen de potássio ou pedra hume (comprada em farmácia)
  • Linhas e tecidos de fibras naturais (algodão, linho, lã ou seda) lavados com água e sabão

Geralmente, a proporção de alúmen utilizada é de 10% do peso das fibras secas a serem tingidas. Como vamos tingir uma quantidade muito pequena, o tanto que cabe em um pote de vidro, usaremos uma medida mais "livre". A mordentagem é um passo opcional. Se você não se importa com a degradação da cor, pule essa etapa!

Passo a passo:
  1. Coloque uma colher de café rasa de alúmen de potássio no pote de vidro e despeje a água fervente. Mexa até o alúmen dissolver completamente.
  2. Coloque as linhas e tecidos nessa solução e complete com água caso seja necessário. As fibras devem ficar "soltas" na solução.
  3. Deixe de molho por 24h. Se você quiser, você ainda pode colocar o pote no sol.

Essa é uma diferença em relação ao método da Claire Wellesley-Smith. Ela indica colocar o alúmen junto com o banho de tingimento, ou seja, fazer as duas etapas em uma. Nas primeiras tentativas fiz dessa maneira, mas percebi que várias vezes o alúmen acabava decantando o corante, ou seja, transformando em pigmento. Com essa decantação, menos corante fica disponível para as fibras e o tingimento fica mais claro.

Tingimento
Com as fibras pré-mordentadas, é hora de passar para o tingimento! 

Você vai precisar de:
  • Matéria-prima tintória, que pode ser: cascas de cebola, folhas de eucalipto ou goiabeira, açafrão, macela, casca de aroeira, catuaba, sementes de urucum, borra de café, chá preto, semente de abacate, casca de romã e até as pétalas de algumas flores. Observação: apesar de serem populares na internet, o repolho roxo, hibisco e água de feijão preto têm corantes classificados como "fugidios". Isso significa que as cores desbotarão muito rapidamente mesmo que você use um mordente.
  • Água
  • Pote de vidro
  • Linhas e tecidos pré-mordentados

O modo de fazer é o mais simples possível: junte tudo no pote de vidro, tampe, e deixe tomando sol por pelo menos uma semana. Muitas coisas vão acontecer ali dentro. Com o passar dos dias a cor da água vai mudar, haverá fermentação e a tampa até vedará. E está tudo bem porque é isso mesmo o que queremos.

Depois que a semana passar, abra o pote, separe suas linhas e tecidos e descarte o conteúdo em um canteiro ou vaso. Depois de tingir, o material utilizado completa o seu ciclo virando adubo para suas plantinhas.

Enxágue as linhas e tecidos até a água sair clara e coloque para secar na sombra para terminar de fixar a cor. Lave de novo com sabão neutro, pode até ser detergente que é mais fácil de encontrar, e pronto! Você tem linhas e tecidos tingidos com o calor do sol.

Tecidos e linhas tingidos com açafrão, urucum, macela, chá vermelho e erva mate

No caso do bordado, use tanto as linhas mouliné ou perlé brancas. É possível tingir também linhas de crochê, barbantes e linhas de costura de algodão. Outra possibilidade é retingir as linhas coloridas, como um banho de borra de café que dá um aspecto pastel ou envelhecido. As linhas absorvem as cores de forma diferente, então faça muitos testes! As cores costumam ser mais fortes nas fibras cruas, que não passaram por alvejamento ou tingimento, por exemplo.

Adaptando técnicas do tingimento natural com calor é possível produzir variações de cor, como o uso de modificadores e até mesmo por meio da "mordentagem" com taninos que também pode ser feita através do método solar. Usando essas técnicas, uma única planta dá origens a várias cores diferentes em um mesmo tipo de fibra. Uma outra forma consiste em deixar o pote com os materiais tintórios no sol por alguns dias, coar e colocar os tecidos e linhas pré-mordentados apenas na solução e voltar o pote para sol por mais um tempo. Tenho preferido fazer desse jeito porque o tingimento é mais uniforme. Ficar em contato direto com o material tintório no pote pode deixar as linhas com efeitos semelhantes à impressão botânica - que também pode ser feita pelo método solar, mas é assunto para outro post.

Se você fizer o tingimento solar seguindo o tutorial, vou adorar saber! Deixe um comentário aqui ou entre em contato através das redes sociais.

Na imagem de abertura do post: potes com erva mate, macela, chá vermelho, açafrão, urucum, caroço de abacate, cascas de árvore de uva do Japão e folhas de eucalipto.

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