Quatro ferramentas de costura e suas contribuições para a história

sexta-feira, 27 de março de 2020

A atividade de costura tem ficado cada vez mais distante do cotidiano das pessoas devido à industrialização do setor têxtil e às facilidades de consumo. Fora da indústria, ferramentas como a agulha e o dedal parecem se restringir ao artesanato ou às atividades da costureira do bairro e da vovó. Mas elas foram importantes em diferentes momentos e continuam ajudando os historiadores e outros profissionais a responder perguntas que não necessariamente se relacionam com o mundo da costura. Nesse texto apresento como quatro ferramentas aparentemente banais são, na verdade, objetos ricos em história.

Agulha

A agulha mais antiga que conhecemos tem pelo menos 50 mil anos e, pasme, não foi feita por um Homo sapiens. Fabricada e utilizada por um hominídeo conhecido como Denisovan, ela foi encontrada na Caverna Denisova na Sibéria. Feita com o osso de uma ave não identificada, ela tem cerca de 7,5 cm e, junto com outros objetos, como um bracelete, é uma pista importante para entendermos o período em que diferentes espécies de hominídeos coexistiam, já que pelo menos duas espécies habitaram a caverna: os Denisovans e Neanderthals. Tudo isso enquanto ainda funciona para costurar. Quem se interessa pelas discussões arqueológicas pode acessar um artigo de 2019 da Nature.


Tesoura de Garça

Apesar de em português ser conhecida como tesoura de garça, a ave na verdade é uma... cegonha! Isso porque ela tem origem nas antigas clamps, um tipo de pinça utilizada pelas parteiras no século XIX para interromper o fluxo sanguíneo do cordão umbilical antes do corte. Ou seja, nem tesoura elas eram, já que o bico na verdade era composto por duas chapas de metal achatadas que não tinham corte. Elas ainda escondiam um pequeno bebê do lado de dentro, na região da barriga da cegonha, que era revelado quando a pinça estivesse aberta. Mas como um instrumento do kit da parteira se relaciona com o bordado? Trabalhar com partos implica em horas, às vezes dias, de muita espera. Para passar o tempo, as parteiras dedicavam-se às atividades de costura: bordavam ou cerziam. No final do século XIX, com a medicalização do parto e quase extinção das parteiras, as clamps passaram a ter outro formato e as primeiras tesouras de cegonha, ou garça, passaram a ser produzidas como ferramentas de bordado.


Dedal

Feito para proteger os dedos das agulhas durante a costura, o dedal já foi utilizado para medir dose de bebidas alcoólicas, além de pólvora na fabricação de munição. Vem daí a expressão inglesa "thimbleful", que significa uma quantidade equivalente a de um dedal. 

No século XIX, os dedais, principalmente de prata, eram oferecidos como um presente às mulheres por seus parentes e pretendentes. Símbolo de recato e habilidades femininas, ele costumava ser carregado em um chatelaine, uma espécie de fivela usada na cintura com correntes penduradas que prendiam ferramentas de uso doméstico, como tesouras e agulhas. Mas, no mesmo período, ele também era utilizado para um fim bastante curioso, conhecido como thimble-knocking: prostitutas utilizavam o dedal para anunciar sua chegada batendo os dedos nas janelas e professoras puniam os alunos bagunceiros, batendo na cabeça.

Em 1915, na Inglaterra, Hope Elizabeth Hope-Clarke liderou uma campanha para arrecadar dedais danificados feitos de metais preciosos com a finalidade de obter fundos para os esforços da guerra. Como a prata é um metal macio, um dedal feito com esse material acabava inevitavelmente furando após algum tempo de uso. Entre 1915 e 1919, cerca de 60.000 dedais quebrados foram convertidos em 15 ambulâncias, 5 hospitais motorizados e 2 carros para cirurgia dentária.

Alfinete de segurança

O alfinete de segurança que conhecemos, aquele de prender fralda de bebê, foi inventado por Walter Hunt e patenteado nos Estados Unidos em 1848. Mas o mesmo tipo de alfinete, a fibula, já existia na Europa desde pelo menos o século XIII a.C., período que ficou conhecido como civilização micênica, ou a última fase da Idade do Bronze na Grécia Antiga. As fibulae eram utilizadas principalmente para unir tecidos, a exemplo de botões, ou ainda para unir peças de roupa superiores às inferiores. Com o tempo, elas passaram a ter o valor de jóias e eram feitas de diversos materiais, como ouro, prata, bronze, marfim, tendo vários tamanhos e formas. Em algumas regiões da Grécia há indícios de que elas tenham sido utilizadas como oferendas votivas para os deuses em templos. Em um único santuário na Ilha de Rhodes foram encontradas cerca de mil e seiscentas fibulae em um depósito de oferendas.

Como os tipos de fibulae são muito específicos de um determinado período e local, elas são muito importantes para os arqueólogos, já que sua presença permite datar de forma precisa todo o conjunto de objetos ou a tumba onde ela foi encontrada. Além disso, elas permites datar e rastrear conexões comerciais entre povos vizinhos, dando pistas sobre trocas culturais. Na revista Expedition do Penn Museum há um artigo curtinho e fascinante sobre as fibulae.

Você imaginava que esses pequenos objetos podiam conter tanta história?

Um comentário:

  1. Bel, que artigo maravilhoso!
    Minha falecida avó era costureira e minha mãe fala que a vó não pregava um botão sem o dedal. Usava-os até furarem. Eu sou uma negação com o dedal, hahahhahaa

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