Espinhole com Miguel Chikaoka

segunda-feira, 2 de março de 2020

Recentemente tive a oportunidade de fazer uma oficina de fotografia pinhole com o fotógrafo Miguel Chikaoka e sua ajudante Natália. A oficina era bem prática e consistia em experimentar a técnica pinhole através da produção de seis fotografias com uma câmera feita com um potinho de filme fotográfico. Já experimentei câmeras pinholes feitas com lata de aço (daquelas de leite ou achocolatado em pó), caixa de fósforo, e lata de sardinha, tanto de filme como papel fotográfico, mas esse modelo eu não conhecia.

Como o dia estava nublado, Chikaoka sugeriu realizar as três primeiras fotografias como um teste para calcular os segundos de exposição. Utilizei 30, 60 e 120 segundos em cada uma delas. Cada fotografia tem cerca de 4,5 x 4,5 cm. Fiz a digitalização com um scanner e positivei com o Photoshop.

30 segundos de exposição (negativo e positivo)

60 segundos de exposição (negativo e positivo)

120 segundos de exposição (negativo e positivo)

A fotografia de 30 segundos ficou subexposta e as outras duas saíram melhores, apesar de a última ter apresentado alterações na emulsão fotossensível do papel fotográfico. Essas interferências são muito comuns na pinhole, em algumas conseguimos até identificar marcas de digitais.

Depois dessa série de testes, fiz mais três imagens. Nas duas primeiras eu não sei ao certo o tempo de exposição. Escolhi o mesmo objeto e testei tempos diferentes: uma com 90 segundos de exposição e outra 100. Mas quando chegou a hora de revelar, Chikaoka ficou distraído conversando comigo e acabou abrindo a câmera antes de colocá-la na câmara escura! Ela ficou superexposta - e por isso posso dizer que tenho uma fotografia em co-autoria com ele. Piadinhas a parte, apesar de a oficina ser bem prática e com pouco espaço para conversas, já que Chikaoka precisava revelar as fotografias dos participantes conforme fossem chegando, ele é uma pessoa muito generosa. 

Sem fazer muitas perguntas, pude ouvi-lo explicar como conduz suas oficinas, das mais longas às mais curtas; como ler a imagem fotográfica, mesmo que pareça não ter saído nada; a importância de observar a luz e estudá-la sistematicamente, para só depois focar no tema; como montar um laboratório de revelação portátil ou fazer pinholes com diferentes materiais. Ele também me lembrou da importância dos processos, mais que dos resultados, já que na pinhole a busca e a coleta de materiais faz parte da produção da imagem. Um exemplo é o artefato que ele usa para fazer o orifício da câmera: em vez da convencional agulha ou alfinete, um espinho de tucumã, palmeira típica da região amazônica, que é "fino como um cabelo". Por isso sua câmera é espinhole.


90 ou 100 segundos (negativo e positivo) - câmera aberta antes de entrar na câmara escura

90 ou 100 segundos (negativo e positivo)
A última fotografia foi a que mais gostei, e a primeira que gostaria de ter realizado. Ela registra o carrinho de pipoca que fica na rua, em frente ao Sesc. Calculei inicialmente 120 segundos de exposição, mas como o sol apareceu no meio da captura e um muro de pedra refletia muita luz, acabei diminuindo o tempo pela metade. Minha escolha foi acertada. A surpresa positiva e o elogio de Chikaoka, quando abriu a tampa da caixa de revelação, logo me lembraram da minha própria reação de felicidade quando as fotografias dos participantes da oficina de pinhole que realizo no museu dão certo. É realmente prazeroso encontrar, ainda boiando na bandeja de água, uma boa imagem.

120 segundo que viraram 60: tempo nublado e ensolarado
Dar tempo ao tempo e aproveitar os processos é isso: vamos testando, repetindo, aprendendo, conversando. Pode ser para fazer seis fotografias ou uma; fazer sem pressa ou ter de pensar rápido e arriscar cortar o tempo pela metade. Pode não dar certo. Mas aí é só tentar de novo. Uma hora alguma coisa sai. E é gostoso demais.

O próximo post será um tutorial de como construir a câmera pinhole que utilizei para fazer essas fotografias. Até lá.

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