O hussif: ou quando a costura histórica e a dissertação se encontram

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Para começar minhas costuras históricas do Traje Brasilis, decidi fazer um hussif, um estojo ou kit básico de costura bastante popular nos séculos XVIII e XIX, costurando tudo à mão.

Para fazer meu hussif, me baseei no projeto da Pauline Kisner, com algumas modificações. Fiz ele um pouquinho menor, porque queria que fosse prático de carregar na bolsa ou na mochila, e pensei a divisão dos bolsos para usá-lo também quando estivesse bordando. Na escolha dos tecidos, optei por manter a combinação do case que fiz para meu Kindle: uma sarja lisa comprada por retalho no Brás e um tecido estampado maravilhoso de um vestido antigo que rasgou. Para o acabamento, fiz o viés preto reaproveitando uma blusa de brechó e utilizei o ponto corrente em linha preta. 

Nos três primeiros bolsos, um maior e dois menores, vão as linhas de costura e bordado, a tesoura - que ganhou uma capinha - e outros materiais. Na parte inferior o agulheiro divide o espaço com um bolso menor, onde guardo a cera de abelha - que descobri ser essencial para a costura à mão. A cera evita que a linha embole ou crie nós, além de protegê-la do atrito com o tecido. O cheirinho de mel com própolis da cera que ganhei do meu pai - ele cria abelhas com e sem ferrão - deixa o momento de costura ainda mais gostoso e dá uma boa sensação de aconchego.

Contendo materiais básicos, como linhas, botões e agulhas, esse kit compacto era utilizado nos séculos XVIII e XIX por mulheres, mas principalmente por homens solteiros ou que estavam longe de casa, como militares, para pequenos reparos. Por isso, o termo que dá nome ao kit é carregado de significados, associando a atividade da costura ao universo feminino: hussif vem do inglês médio huswif, ambos equivalentes a housewife, ou, dona de casa em português. O hussif seria, então, um substituto da esposa ou da mãe para esses homens. E, para minha surpresa, ele continua sendo utilizado até hoje. Em agosto do ano passado o exército americano foi acusado de sexismo justamente porque alguns regimentos ainda se referiam ao kit de costura do equipamento dos soldados como housewife. A polêmica foi considerável ao ponto de o Ministro da Defesa ter de se pronunciar.

Como eu tenho particular interesse em cultura material da Primeira Guerra Mundial - um capítulo da minha dissertação é dedicado aos usos e à imaginária de um objeto inventado nesse conflito, a máscara de gás -, resolvi revisitar os acervos de alguns museus e algumas referências bibliográficas para ver se eu encontrava alguma coisa sobre a presença de hussives nas trincheiras, ou qualquer menção à atividade de costura. E encontrei!

Os hussives faziam parte do equipamento dos soldados, que podia chegar a espantosos 27 quilos. Podemos encontrar alguns nos acervos do britânico Museu Imperial da Guerra ou no Museu da Guerra do Canadá. É interessante observar como a gama de cores, botões e outros materiais são limitados ao regimento e à patente do dono do kit, já que correspondiam às especificidades do uniforme. Eles eram fornecidos pelo exército, algo como um hussif "oficial", ou por civis que apoiavam os esforços da guerra, como é o caso desse kit neozelandês. Nada impedia também que os soldados levassem os hussives feitos em casa.

Hussif de um soldado neozelandês, Primeira Guerra Mundial. ©Auckland Museum

Por mais incrível que possa parecer, o hussif era um equipamento vital para um soldado. Ele permitia reparar buracos e pregar botões, mantendo-o protegido do frio ou da água. Além disso, eram os próprios soldados que bordavam e costuravam as insígnias e distintivos indicativos de patente ou unidade, caso fossem promovidos. Mas os kits de costura também tiveram usos inventivos. Henry John Harris, um soldado australiano, conta que: 

"Devido às condições extremas de frio e como havia um estoque de sacos de areia na casamata [um tipo de construção fortificada], decidi costurar vários sacos de areia para fazer um cobertor, e acredite em mim, esses sacos de areia mantiveram eu e meu camarada quente durante as quatro noites em que ficamos naquele lugar".

Com relação às imagens produzidas no período, encontramos soldados costurando em diferentes situações, como em um submarino:

Francis Dodd, 1918 © IWM (Art.IWM ART 918)
Se observarmos o desenho de Dodd com atenção, é possível identificar a pequena tesoura e a placa de linha do seu kit de costura. Há ainda uma fotografia preciosa que registra um grupo de soldados franceses descansando enquanto um deles faz reparos nos uniformes. Publicada no jornal Western Newspaper Union em novembro de 1918, era acompanhada por um texto:


A agulha solitária
F. 0. - 454 telegrafistas do exército francês; suas roupas rasgaram subindo e descendo os postes. Pararam para almoçar e descansar enquanto o membro afortunado que possui o precioso pedaço de aço está agindo como alfaiate e remendando roupas para o resto.

O que me chama a atenção nessas imagens é a presença desse momento bastante inofensivo de costurar, que irremediavelmente remete ao ambiente caseiro, em uma guerra que inventou os métodos modernos de combate, como as armas químicas, os lança-chamas, as metralhadoras, os tanques e os bombardeios aéreos. 

Esse contraste entre o trabalho inofensivo e o mortífero fica ainda mais evidente na tela "Heavy Artillery", encomendada pelo governo britânico ao artista Colin Gill em 1919. Ocupando a posição central da tela, o soldado absorto  em sua costura parece não notar o imenso esforço físico ou a exaustão - e quem sabe o choque? - daqueles que o rodeiam. Costurar parece a única ação realmente humana, e por isso chama a atenção como esse personagem está despido de seu equipamento: o capacete que está aos seus pés e a bolsa que deixa entrever o tubo sanfonado de sua máscara de gás. Retratado em pleno ato de puxar a linha, é ele que tensiona toda a pintura, como se sintomatizasse a inutilidade e o absurdo da guerra.

Heavy Artillery. Colin Gill, 1919. © IWM (Art.IWM ART 2274)
Essa interpretação ganha ainda mais força quando recorremos a um dos estudos de Gill para "Heavy Artillery". Nele, o gesto do soldado costurando é carregado de dramaticidade, ressoando algumas poses clássicas da pintura histórica. Felizmente, Gill preferiu retratar o soldado em uma posição mais  natural e anatômica, talvez porque o próprio ato de costurar em uma guerra já fosse dramático por si só.

Cartoon for Heavy Artillery. Colin Gill, 1919. © IWM (Art.IWM ART 4026)
Fazendo a mini pesquisa para esse texto, descobri que a costura e principalmente o bordado tiveram um papel importante na recuperação e na reinserção social de ex-combatentes mutilados da Primeira Guerra Mundial. Mas deixo essa história para outro post. 

5 comentários:

  1. Bel !!! Chocada com a preciosidade que é esse seu post!! Que maravilha, que coisa linda sua análise, as imagens, a delicadeza e a inteligência em tudo q vc faz.������

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  2. Bel, que post maravilhoso e que riqueza de informações!
    E seu hussif ficou lindo!

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  3. Sensacional! Amei aprender com você.

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    1. Muito obrigada por dedicar um tempinho para ler e comentar, Raquel! Seja bem-vinda 💕

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  4. Uau! Este seu artigo me chama a atenção para as tantas coisas que existem e carregam uma história tão longa e que mal podemos imaginar. Eu nunca mais vi esses estojinhos de costura feitos a mão. Comecei a pesquisar "hussif" aqui e me deu uma vontade imensa de preparar um estojo assim também. Muita inspiração!
    Fiquei curiosissima para saber sobre a reinserção dos ex-combatentes....

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