Traje Brasilis: minha pesquisa

sábado, 7 de dezembro de 2019


O Traje Brasilis é um projeto criado por historiadores da moda independentes que buscam responder à pergunta: o que os brasileiros vestiam em outras épocas? Para isso, uma das metodologias consiste em recriar historicamente o traje, o que significa arregaçar as mangas e costurar.

Como explica Hilary Davidson, a reconstrução histórica de trajes tem basicamente duas metodologias. Na primeira,  a criação do molde se dá a partir de peças de época que estão preservadas. Ou seja, consiste em criar uma réplica com os materiais disponíveis atualmente. Na segunda forma, adotada pelo Traje Brasilis, as peças são criadas a partir de trajes que não existem mais ou que nunca existiriam, usando como referência pinturas e fotografias, manuais de costura da época, ilustrações e até mesmo descrições verbais em textos históricos. O segundo método, portanto, é uma interpretação possível do traje. A Pauline Kisner, especialista em moda histórica, apresenta essas questões metodológicas na Recriação histórica aplicada à História da Moda.

Mesmo que óbvio, é importante lembrar que um traje reconstruído hoje, mesmo que replique peças originais, nunca será, obviamente, um traje de época. Ainda que pudéssemos reproduzir todas as técnicas de fiar, tecer, tingir e estampar, dependeríamos de matérias-primas diferentes, geneticamente falando. Inevitavelmente, o algodão e o couro produzidos hoje, por exemplo, têm características diferentes daqueles de séculos anteriores. Sabendo de todas essas limitações e que uma peça produzida hoje não será igual às do período estudado, por que se dar ao trabalho de reconstruir as vestimentas? 

A reconstrução dá uma dimensão prática à pesquisa, exigindo a realização de escolhas interpretativas. Nesse processo, novas e boas perguntas acabam surgindo, não só sobre os trajes, mas também sobre o contexto histórico e cultural. Pretendo demonstrar nos próximos textos como as escolhas dos materiais, moldes, a montagem, pontos de costura, etc., geram perguntas sobre temas corriqueiros da história do Brasil - como por exemplo a existência ou não de um bolso - que acabam tendo impacto em aspectos históricos “grandes”. Então por mais que o projeto tenha um viés da História da Moda, eu encontro a antropologia (minha relativa zona de conforto) nos questionamentos que essas coisas miúdas, e a primeira vista insignificantes, colocam ao processo de reconstrução do traje. Em contrapartida, é impossível não refletir sobre como nos relacionamos com as roupas atualmente.

Na primeira etapa do projeto serão recriados os trajes coloniais dos personagens retratados por Carlos Julião, um militar ítalo-português que esteve no Brasil no final do século XVIII e início do XIX. As referências visuais são as 43 aquarelas que compõem o catálogo "Riscos Iluminados de Figurinhos de Negros e Brancos dos Uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio", publicado em 1960 pela Fundação da Biblioteca Nacional. Cada pesquisador participante recriará o traje de uma figurinha, e o processo de produção e os resultados serão divulgados publicamente. Os resultados preliminares de algumas pesquisas já podem ser encontrados no blog do Traje Brasilis.

Minha figurinha e seu traje
Como estou aprendendo agora o que é História da Moda e tenho pouquíssima experiência com modelagem, escolhi um traje mais "simples" para reconstruir: a figura 02 da prancha XXXIII.

Carlos Julião, prancha XXXIII

Trata-se de uma mulher negra e provavelmente escravizada, hipótese que se justifica pela ausência dos sapatos. O tabuleiro de frutas indica que ela trabalha como quitandeira, sendo, portanto, uma “escrava de ganho”. Em uma olhada rápida, notamos que ela usa um torço (turbante) de um tecido que lembra um xadrez em tons de vermelho; veste uma camisa (chemise) branca com as mangas dobradas, bordada ou rendada nos ombros e com gola em fenda, unida por dois botões ou broches dourados. A saia é preta e longa, na altura dos tornozelos, com um discreto volume. As listras do tecido utilizado para carregar a criança indicam que é um pano da costa ou alaká. Uma tira de pano amarrada aos quadris leva alguns pingentes ou balangandãs e (provavelmente) dois saquinhos. A figura também usa jóias: brincos, pulseiras e colares, um escapulário ou um saco de mandinga. Ela também apresenta tatuagens na face, nos braços e no rosto. Dentre todas é possível identificar apenas o pentagrama na mão esquerda, que segura o cachimbo.

Questões éticas
Uma das propostas do Traje Brasilis é recriar os trajes nas medidas da pesquisadora. A ideia é que as peças possam ser vestidas, com a intenção de facilitar a observação do caimento e perceber as sensações e limitações que elas produzem ou não no corpo. Como uma pesquisadora branca de uma figurinha negra, vestir as roupas - ainda mais publicamente - está fora de cogitação. Como o objetivo não é me "fantasiar de escrava", meu traje será recriado para ser exposto apenas em um manequim.

Essa distância - entre minha figurinha e eu - coloca questões para o próprio Carlos Julião e outros viajantes que retrataram a escravidão e os povos negros no Brasil colonial. Será impossível não discutir a exotização dos corpos negros, as violências e preconceitos do olhar distanciado do colonizador. Precisarei ter cuidado para não ecoar, com meu olhar limitado de agora, as limitações do de Julião. Mal comecei a planejar os moldes das peças e algumas lacunas na bibliografia consultada já se colocaram. Espero escrever em breve sobre elas por aqui.

Um comentário:

  1. Que pesquisa incrível, Bel!! parabéns. Vou acompanhar de perto. Não vejo a hora de ler mais seus textos maravilhosos. E agora ainda com desenhos ♥♥♥

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