Aprendendo perspectiva (ou quase)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019


Desde que conheci o urban sketching pela Karina Kuschnir há alguns anos, fiquei apaixonada. Passei a acompanhar blogs e contas no Instagram e Youtube sobre o assunto, li sobre os diferentes tipos de materiais, memorizei várias dicas... Investi em materiais artísticos relativamente caros e de vez em quando tentava desenhar, mas sempre ficava insegura e logo abandonava a caderneta incompleta. Por mais que eu quisesse muito, o desenho não virava um hábito.

O que me incomodava era não compreender bem noções de perspectiva e movimento. E por mais que eu julgasse ter simplificado e selecionado ao máximo aquilo que queria colocar no papel, tudo continuava muito complexo e o resultado final era muito frustrante. Decidi então fazer um curso de esboço e aquarela com ênfase em arquitetura e a experiência foi enriquecedora, para além do aprendizado das técnicas de desenho. A estrutura do curso compreendia 6 aulas de 6 horas cada em pontos diferentes da cidade. Nas aulas descobríamos técnicas básicas de observação e interpretação da perspectiva, percebíamos onde estavam as luzes e sombras, tão essenciais para criar a sensação de profundidade e sugerir os detalhes, a como conduzir a água na aquarela (a gota sempre vai para baixo!), quando adicionar mais água ou pigmento… Como os espaços urbanos são habitados, aprendemos também a desenhar figuras humanas de forma simplificada, sugerindo movimento. E a cada aula, aplicávamos as técnicas aprendidas para desenhar um edifício.

Auditório do Ibirapuera

A riqueza do curso estava justamente no fato de ficarmos 6 horas observando um mesmo local, o que acabava transformando a cidade bem ali, debaixo dos nossos próprios olhos. Coisas antes insignificantes se tornaram imperiosas: quantas janelas tem o prédio? Essa árvore sempre esteve aí? Não dá pra deixar o detalhe desse parapeito de fora! E essa sombra, tão importante! Fazer isso em grupo era melhor ainda, já que trocamos impressões sobre aquilo que observávamos e sobre os esboços, além de um estimular o outro quando só sabíamos ver defeitos em nossos próprios desenhos. Desenhar na rua também afetava os transeuntes, aqueles que, em um primeiro momento, só estavam de passagem. Tinha  gente que parava e observava quietinho. Outros perguntavam o que estávamos fazendo, se era aula ou se poderia sentar e desenhar também. Havia ainda quem desviasse do caminho para não atrapalhar nossa visão do edifício, como se estivéssemos tirando uma fotografia, e se desculpavam cerimoniosos por "atrapalhar". Mas os que mais me encantavam eram aqueles que paravam e olhavam na mesma direção que nós, os desenhadores¹, tentando entender porque um grupo de pessoas observava e desenhava esse ou aquele prédio, como se se perguntassem intrigados (as sobrancelhas não deixam mentir) o que ele teria de tão especial assim.

Centro Cultural São Paulo

No curso recebi um kit composto por dois blocos de papel (um para desenho e outro para aquarela), um godê, um pincel de cerdas naturais e 3 pastilhas de aquarela nas cores primárias: azul (ultramarine deep), amarelo (permanent yellow deep) e vermelho (permanent red light), dentro de uma ecobag. Como eu só conhecia pincéis sintéticos, gostei muito de experimentar um com cerdas naturais, já que ele retém mais água e interaje com os pigmentos de forma muito diferente. Com relação às tintas, da marca Sakura Koi, fiquei bastante decepcionada. Não saía nenhum tom bonito de verde, nem de marrom, nem de roxo. As cores ficavam sempre muito lamacentas e para trazer mais vida aos esboços comecei a usar também tintas da Pentel. Mas me mantive fiel a proposta do curso e só usei as primárias, pois queria aprender a produzir a maior quantidade possível de cores com uma paleta mínima. No fim acabei usando as 6 cores juntas e descobri que, ao misturar as tintas de marcas diferentes, eu produzia uma textura muito bonita quando a pintura estivesse seca. Ou seja, ao tentar solucionar um problema, descobri coisas legais.

Sesc Pompeia


Depois de concluir o  curso, já com saudade, ainda acho difícil entender certas linhas na perspectiva, mas o processo deixou de ser tão cabeludo. Desenhar pessoas em movimento, por outro lado, continua desafiador. Como o curso era focado em arquitetura, as técnicas apresentadas para retratar as figuras humanas eram muito esquemáticas. Meu próximo passo é aprender a desenhar pessoas com mais detalhes, já que como boa antropóloga, elas me interessam mais. E praticar. Para descobrir e exercitar novas técnicas e estratégias, adquiri dois livros incríveis sobre perspectiva e figura humana, que estão me ajudando. Um dia, quem sabe, escrevo sobre eles. 

¹Descobri recentemente que na Portugal do século XVIII eram chamados de desenhadores aqueles que desenvolviam a habilidade do desenho através de uma formação instrumental, já que a Academia de Belas Artes portuguesa só foi criada em 1836.

4 comentários:

  1. Viva Bel!! Cheguei! Que lindo demais esse blog, esse post, tudo! Muito obrigada por mencionar o meu blog e a inspiração. Fiquei super curiosa: com quem você fez esse curso e onde? beijinhos e vida longa ao seu blog! ♥

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    1. Ahhh, que bom te ter aqui! Obrigada por ser tão maravilhosa!
      Eu fiz o curso com o Mauricio, um professor mexicano que tem uma empresa que chama Trazo Sketch. As aulas acontecem na rua, em pontos da cidade, e essa foi a primeira vez que ele veio ao Brasil.

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  2. Conheci seu blog por meio do blog da Karina, de quem sou fã. Estou ainda iniciando nos cursos de desenho, mas me identifiquei muito com o que disse, na dificuldade em tornar um hábito, acho que isso é recorrente para muitos.

    É bom ver relatos assim pra sabermos que não é preciso desistir e que é normal sentir-se assim; o que realmente importa é continuar praticando...

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